No longínquo ano de 1874, o médico Sinfrônio Coutinho descobriu que uma substância extraída do jaborandi, planta típica da floresta Amazônica, contraía a pupila e poderia tratar o glaucoma. Trata-se do primeiro registro histórico que há no país sobre o desenvolvimento de um medicamento. Mais de um século se passou para que existisse no país um avanço que superasse a descoberta de Coutinho. Nas últimas décadas, a indústria brasileira de medicamentos viveu basicamente de cópias dos produtos dos grandes laboratórios mundiais -- à exceção de alguns fitoterápicos desenvolvidos localmente. No dia 22 de outubro, porém, o laboratório farmacêutico Cristália apresentou a primeira molécula inédita inteiramente sintetizada e com patente requerida no país. "Trata-se de uma revolução para o mercado brasileiro", afirma Dagoberto Brandão, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Pharma Consult, consultoria de pesquisa de novos produtos. Até o final do ano, a empresa, localizada em Itapira, no interior de São Paulo, planeja colocar no mercado o Helleva, remédio para tratar a disfunção erétil. "É a concretização de um sonho e um momento histórico para a indústria farmacêutica nacional", diz Ogari Pacheco, presidente do conselho de administração do Cristália e um de seus quatro fundadores.

A novidade é fruto de um longo e árduo processo de desenvolvimento que durou mais de sete anos e envolveu quase 60 cientistas e 453 pacientes em testes clínicos realizados em 17 centros de pesquisas em todo o país (a empresa não revela o valor investido). Além de estabelecer um marco, o lançamento faz com que o Cristália -- cujas vendas chegaram a 510 milhões de reais em 2006 -- entre na disputa pelo movimentado mercado de medicamentos para disfunção erétil, um dos maiores do país. O Brasil é o terceiro maior mercado do mundo nessa categoria, atrás de Estados Unidos e Inglaterra. Só no ano passado, a impotência sexual masculina ajudou a indústria a movimentar mais de 420 milhões de reais. A briga que o Cristália vai enfrentar será dura. Todos os concorrentes são gigantes, como as americanas Pfizer, que inaugurou este mercado ao lançar o Viagra há dez anos, e Eli Lilly, dona do Cialis, além da alemã Bayer, do Levitra.

Para entender como um laboratório brasileiro conseguiu tornar o lançamento de um medicamento original uma ambição possível é preciso olhar para a trajetória do Cristália. A empresa nasceu em 1974, apenas para abastecer a clínica psiquiátrica que Pacheco e três colegas montaram ao sair das faculdades de medicina e odontologia da Universidade de São Paulo. Na época, eles queriam se livrar da dependência de caros medicamentos estrangeiros e passaram a copiar fórmulas existentes. "Com o tempo, percebemos que teríamos de inovar para ter produtos diferenciados", diz Pacheco, o único remanescente do quarteto (dois venderam suas participações e um deles já morreu). A grande ruptura aconteceu no final dos anos 80, com a contratação de um grupo de pesquisadores. Desde então, Pacheco passou a dedicar 7% do faturamento da empresa a pesquisas.

Os números do Helleva
Os dados que dão a dimensão do esforço do Cristália para desenvolver um medicamento original no Brasil
Da idéia à aprovação, o projeto consumiu sete anos
60 cientistas envolveram-se na pesquisa - 15 deles foram contratados para o projeto e agora permanecem na empresa
Nas três fases dos testes clínicos participaram 453 pacientes em 17 centros de estudo de todo o país
Ao final dos testes, foram entregues 70 quilos de documentos para aprovação da Anvisa
Para viabilizar o Helleva e outros 27 projetos de novos medicamentos, a empresa passou a investir 7% do faturamento anual, de 510 milhões de reais, em pesquisa
Fonte: empresa

NO FINAL DOS ANOS 90, o empresário vislumbrou a oportunidade de dar um passo mais ousado e chegar a uma molécula completamente nova. "Quando saiu o Viagra, um sucesso mundial, a primeira coisa que pensamos foi que era areia demais para nosso caminhãozinho", diz ele. "Após inúmeras conversas com cientistas, chegamos à conclusão de que poderíamos, sim, encarar." O ponto de partida foi encontrar um princípio ativo que cumprisse a mesma função que o Viagra -- inibir a enzima responsável pela contração dos vasos sangüíneos.

O primeiro grande obstáculo foi tentar aproximar o mundo dos negócios, movido pelo pragmatismo dos resultados, do acadêmico, em que o retorno dos investimentos quase sempre é imprevisível e nem sempre desejável. Em 2000, o Cristália passou a trabalhar em parceria com mais de 17 centros de pesquisa no país e aumentou o número de cientistas contratados de 43 para 58 -- uma relação que, aos poucos, começou a causar alguns conflitos. A maneira encontrada para garantir que a empresa e o grupo de cientistas pensassem em sintonia foi a criação de um conselho científico, em 2004. O time é formado por dez professores com nível de doutorado e pós-doutorado das principais universidades do país que se reúnem uma vez por mês para ajudar o Cristália a recrutar e selecionar os projetos mais promissores. "Hoje não existe nenhum laboratório no país com a mesma estrutura", diz o consultor Nelson Libbos, presidente da subsidiária brasileira do laboratório indiano Teva. Trata-se de uma versão simplificada do modelo utilizado por grandes indústrias globais, em que membros da comunidade científica estão disponíveis em tempo integral para analisar a viabilidade de pesquisas e produtos. "Aprendemos a pensar um pouco mais com a lógica de negócios", diz Regina Scivoletto, professora titular de farmacologia da Universidade de São Paulo e coordenadora do conselho. "Controlamos, por exemplo, a ansiedade de publicar artigos ao realizar descobertas para manter sigilo comercial."

Após três anos de estudos clínicos com 453 voluntários, Pacheco enfrentou a burocracia para aprovar o uso do Helleva na Anvisa, agência governamental que regula o mercado de medicamentos. Disposto a demonstrar que o desenvolvimento do produto havia seguido todas as exigências legais, o Cristália entregou 70 quilos de documentos para avaliação da agência. "Foram oito meses de espera, mas, para quem havia passado sete anos pesquisando, pareciam oito séculos", afirma Roberto Debom, diretor de pesquisa, desenvolvimento e inovação do Cristália. Quando tudo parecia perto do fim, os executivos tiveram uma surpresa desagradável. A Anvisa não queria aprovar o nome e a identidade visual do produto, em que as duas letras "l" apresentavam um tamanho crescente -- algo que poderia, digamos, sugestionar o consumidor. A empresa teve de simplificar o logotipo.

Segundo maior fornecedor de remédios para hospitais brasileiros, o Cristália terá agora de aprender a se mover num território pouco conhecido -- o varejo. Como a indústria farmacêutica é impedida de fazer propaganda de produtos para os consumidores, a principal tática do Cristália será atacar os médicos, o principal elo dessa cadeia. A abordagem será parecida com a que levou o Cialis a desbancar a hegemonia do Viagra, no início deste ano -- destacar as vantagens do produto em relação aos concorrentes. O grande trunfo da Eli Lilly foi o período de 36 horas de duração do efeito no organismo. No caso do Helleva, há dois apelos. Um deles é o tempo do efeito -- 8 horas, o dobro do Viagra, por exemplo. O outro é o preço. Estima-se que ele será até 30% mais barato do que os concorrentes (a definição ainda depende da avaliação da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos). Desde julho, o laboratório aumentou sua força de vendas em 80% e agora conta com 200 representantes comerciais. O Eli Lilly, por exemplo, possui cerca de 40 representantes. Para superar a inexperiência do Cristália em grandes lançamentos, a solução foi recrutar executivos tarimbados. Um deles foi o paulista Wilson Montesano, ex-Farmasa e Bristol Myers Squibb, contratado há cinco meses como gerente nacional de demanda para o varejo do Cristália. Com essa estratégia, o objetivo da empresa é alcançar 20% de participação de mercado em dois anos.

O Helleva pode inaugurar um ciclo de expansão para o Cristália. Um dos indícios disso é que alguns laboratórios internacionais, segundo Pacheco, já demonstraram interesse em licenciar o medicamento no exterior. A empresa deve pôr em funcionamento uma fábrica em Itapira, em 2008, que vai triplicar sua capacidade de produção atual com investimentos de 70 milhões de dólares. Com a experiência adquirida nos sete anos de desenvolvimento do Helleva, o Cristália planeja reduzir até um ano o tempo de execução de outros projetos inovadores. (A companhia teve de desenvolver do zero pela primeira vez, por exemplo, o conhecimento prático de testes de toxicologia da molécula em laboratórios nacionais, que jamais tiveram a demanda para isso.) Hoje, a empresa possui 27 estudos em andamento em áreas como anestésicos e medicamentos para Aids. O laboratório estima que cerca de cinco estarão prontos em 2010. "Estamos trabalhando na fronteira do conhecimento para solucionar moléstias que ainda não têm cura", diz Pacheco.

Artigo: Revista EXAME